Camila Ribeiro/HNT
O produtor rural, Rogério Berwanger, apresentou ao HNT o que considera a maior riqueza deixada pelo pai: a nascente e água no interior da fazenda.
Camila Ribeiro/HNT
O produtor rural, Rogério Berwanger, apresentou ao HNT o que considera a maior riqueza deixada pelo pai: a nascente e água no interior da fazenda.
Na Fazenda Itapiranga, localizada em Juscimeira (157 km de Cuiabá), a preservação de uma nascente de água está na segunda geração dos Berwangers, catarinenses radicados no interior de Mato Grosso. A herança familiar gera impacto na vida urbana, auxiliando as torneiras dos moradores a não secarem, cumprindo um papel que naturalmente não é imputado ao agro: o de pensar a sustentabilidade da água e não só da provisão de alimentos.
O produtor rural, Rogério Berwanger, de 57 anos, apresentou à reportagem do HNT ao que considera a maior riqueza deixada pelo pai, Egídio Berwanger, que faleceu em 2020, aos 82 anos. Ao todo, segundo Rogério, a água percorre 30 hectares na propriedade. A boa prática conta com o apoio do ‘Guardião das Águas’, projeto promovido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), que mapeou 105 mil nascentes em 56 municípios do estado.
“A gente sempre tem uma preocupação com a água. Se a gente não preservar, as nascentes vão acabar”, disse Rogério. “A água é vida. O produtor sem água não é nada”, emendou.
Se a gente não preservar, as nascentes vão acabar
Os fios de água brotam do chão na área de proteção ambiental (APA) da fazenda. Na cabeceira, os pequenos corredores – chamados de afluentes – se conectam e seguem seu curso, até formarem o Rio Bonito.
A concentração alimenta os lençóis freáticos por onde passa, abastecendo as reservas naturais e é captada pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Juscimeira e tratada para o consumo humano.
NASCENTE RECUPEROU MATA
Na reserva da fazenda, o entorno da nascente tem flora diversificada. É nítida a influência da água na composição do cenário. Árvores permanecem em pé, resistindo ao sol firme do cerrado. A vegetação vívida faz sombra aos pássaros que dividem a APA com outros animais. Na trilha até a nascente, encontramos pegadas de antas, típicas da região, indicando a passagem do mamífero que foi matar a sede.
Reprodução/Arquivo pessoal
Egídio Berwanger deixou Santa Catarina em 1973 para se investir no agro em Mato Grosso; ele faleceu em 2020, aos 82 anos.
Esse cenário só é possível devido ao esforço do produtor que junto com a família recuperou a mata. Quando o Egídio Berwanger chegou a MT, em 1973, optou por construir a primeira sede próximo à nascente para facilitar a rotina e iniciar o plantio. Para isso, foi preciso desmatar parte da área que mais tarde foi readequada para APA.
Quatro anos depois, em 1977, Rogério se mudou com a mãe e irmãos onde ainda fica a sede atual e as demais casas dos funcionários.
O caminho na trilha é nostálgico para o produtor que lembra exatamente das primeiras enxadadas para ajudar o pai, encontrando sua vocação. Ele brinca, que diferente dos irmãos, fugiu da escola.
“Sou um fugitivo da escola. Meus irmãos fizeram faculdade, mas só cursei até o segundo grau”, contou aos risos.
Embora tenha pouco estudo, Rogério foi forjado a partir das dificuldades da vida e foi completamente influenciado pela figura do pai, fincando raízes profundas no agro.
Ver o que a gente faz hoje, deixa a gente emocionado
O produtor se emocionou ao narrar a sua trajetória, a entendendo como prova de que o agronegócio brasileiro não é responsável pela degradação ambiental como disseminado mundo afora, principalmente, pelas tradings que controlam a moratória da soja.
“A gente que vive todo dia essa rotina, acompanhou toda a evolução que a agricultura teve e ver o que a gente faz hoje, isso deixa a gente emocionado porque muita gente não faz isso”, ressaltou Rogério.
Camila Ribeiro/HNT
O produtor rural, Rogério Berwanger, se emociona ao compartilhar os esforços da família para reflorestar o entorno da nascente e falar sobre seu papel como guardião da flora diversificada na área de proteção ambiental.
SEGURANÇA HÍDRICA
Rogério Berwanger disse que um estudo feito na nascente apontou que a água é rica em ferro. Consultamos o doutor em recursos hídricos e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Ibraim Fantin da Cruz. O especialista confirmou que é uma característica recorrente às nascentes identificadas no estado por influência dos compostos orgânicos do solo. Ibraim Fantin também ressaltou que a proteção da nascente é essencial para garantir os lençóis freáticos permaneçam ativos.
Ao protegermos as nascentes, temos segurança hídrica
“Chove na bacia, uma parte infiltra, alimenta as águas subterrâneas, alimenta os aquíferos e uma parte escoa superficialmente. Então, a proteção das nascentes é muito importante porque ela faz essa transição da água subterrânea para a água superficial. E você trouxe uma característica, o ferro aqui no Mato Grosso. No solo que a gente tem aqui, é uma característica muito comum mesmo da água ser rica em ferro”, falou o doutor da UFMT por telefone.
Ibraim acentuou que iniciativa do produtor rural é uma boa prática que deve ser seguida por garantir a segurança hídrica.
“A perenidade do rio, ela é definida, ela é determinada pelas nascentes. Ao protegermos as nascentes, temos segurança hídrica. Se pensamos em segurança hídrica, pensamos nos serviços ecossistêmicos e ambientais que a água proporciona”, pontuou o professor.
QUAL É O CICLO DA ÁGUA?
De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o ciclo da água pode ser compreendido em seis etapas: chuvas, infiltração da água no solo, formação de cursos d’água, evaporação, transpiração e condensação. A repetição das fases é infinita, garantindo a reposição das reservas.
A chuva pode ser considerada ou última primeira etapa do ciclo da água, depende do anglo pelo qual é observada. As precipitações caem sobre o solo. O líquido se infiltra na terra, descendo até alcançar o lençol freático que retornam à superfície por meio das nascentes.
Os afluentes se conectam e dão origem a riachos, córregos e em grandes proporções rios. Os cursos de água desembocam em represas, lagos e aquíferos que são usados para o abastecimento de casas e empresas.
A água evapora com o calor do sol, subindo para a parte mais alta do céu. A transpiração do corpo humano e vegetação também produz vapor. Na atmosfera, há a condensação do vapor formando as nuvens e, por último, as chuvas.
Camila Ribeiro/HNT
A Agência Nacional de Águas compreende o ciclo da água em seis etapas: chuvas, infiltração da água no solo, formação de cursos d’água, evaporação, transpiração e condensação.
As nascentes são parte essencial desse processo e sua preservação influencia na qualidade das bacias hidrográficas, destacou o professor da UFMT, Ibraim Fantin da Cruz.
A preservação das nascentes influencia na qualidade das bacias hidrográficas
“Olhando nesse contexto, o que é uma nascente? Uma nascente é uma surgência de água subterrânea, uma água que choveu nessa bacia. Os rios maiores dependem muito dessa contribuição”.
Juscimeira é parte da Bacia Hidrográfica do São Lourenço, banhada, principalmente, pelo rio que a nomeia. Outros 13 municípios são abastecidas pela bacia: Alto Garças, Campo Verde, Dom Aquino, Guiratinga, Jaciara, Pedra Preta, Poxoréu, Primavera do Leste, Rondonópolis, Santo Antônio do Leverger, São José do Povo, São Pedro da Cipa e Tesouro.
GUARDIÃO DAS ÁGUAS
A nascente da Fazenda Itapiranga é uma das 105 mil monitoradas pela Aprosoja MT por meio do projeto ‘Guardião das Águas’ que orienta os 9 mil associados sobre a importância de restaurar as áreas. A iniciativa é uma das ações de sustentabilidade desenvolvidas pela entidade que investe no letramento sustentável dos produtores rurais.
O presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, falou com exclusividade ao HNT que a meta é ampliar o projeto, ultrapassando a marca de 56 cidade no estado.
“Não é só o produtor que ganha, é toda a população e, principalmente, os municípios onde se tem a maior produção agrícola”, pontuou Costa Beber.
A proteção das nascentes é mais um dos serviços ambientais com os quais o produtor rural mato-grossense contribui para as cidades
O vice-presidente da Aprosoja MT, Luiz Pedro Bier, responsável por coordenar o ‘Guardião das Águas’, ressaltou que a intenção da associação é mapear todas as nascentes do estado. A projeção de Pedro Bier é que esse processo exija dois anos.
Conforme o vice-presidente, a ação vai além da descoberta da nascente e conta com corpo técnico que auxilia na recuperação da água. Pedro Bier disse que das 105 mil nascentes monitoradas pela entidade, 95% encontram-se em bom ou ótimo estado de conservação.
“A proteção das nascentes é mais um dos serviços ambientais com os quais o produtor rural mato-grossense contribui para as cidades. Nós sabemos que a água dessas nascentes abastece os municípios e o produtor mato-grossense tem feito a sua parte, tem feito o seu papel”, afirmou o vice-presidente da Aprosoja MT.
ASSISTA AO MINUTO HNT
A trajetória de vida do produtor rural Rogério Berwanger é um exemplo do equilíbrio entre a capacidade do agronegócio de gerar riquezas e ser sustentável. Assista no Minuto HNT essa história inspiradora.
DIÁRIO DE BORDO
A reportagem do HNT embarcou na rodoviária de Cuiabá na noite anterior à externa. Foram cerca de 2h30 de ônibus para percorrer os 143 km até a rodoviária de Jaciara, cidade vizinha com o melhor acesso à fazenda. A equipe dormiu em um pequeno hotel ao lado da rodovia MT-457.
Antes das 7h já seguíamos caminho sentido Juscimeira para encontrar o produtor rural, Rogério Berwanger. O Google Maps indica que em até 55 minutos é possível chegar ao endereço. Porém, apenas um trecho é asfaltado, atrasando um pouco o trajeto.
Camila Ribeiro/HNT
O supervisor de projetos e relacionamento da Aprosoja MT, Matheus Ibanez (à esquerda), e o produtor rural Rogério Berwanger.
A equipe experimentou na pele os percalços de morar na zona rural entre Jaciara e Juscimeira.
A estrada de chão tinha diversos buracos e lombadas formadas pela movimentação da terra. Mas o risco está nas aberturas profundas nos acostamentos, capazes de engolir, facilmente, um carro popular ou motociclistas que se aventurem em alta velocidade.
A falta de sinalização nos fez seguir pela direção errada. O caminho incorreto nos presentou com a vista de um pequeno riacho de água límpida. A hospitalidade dos trabalhadores de uma fazenda nos colocaram de volta à rota e pouco mais de uma 1h30 encontramos a Fazenda Itapiranga.
O supervisor de projetos e relacionamento da Aprosoja-MT, Matheus Ibanez, recebeu a equipe e apresentou a estrutura até a chegada de Rogério. Ele acompanhou e deu suporte durante toda a visitação.
A sede é simples, mas charmosa e é vizinha ao silo que armazena os grãos de soja e milho.
Camila Ribeiro/HNT
O câmera e operador de áudio, Claudeci Lima, na nascente da Fazenda Itapiranga provando a água rica em ferro.
Rogério nos acompanhou até a nascente. Nos apresentou orgulhoso e com ouvidos sempre atentos as perguntas quase que inesgotáveis desta repórter ao ponto de deixar as lágrimas rolarem sobre o rosto com marcas do tempo e do sol que feriu o corpo no trabalho árduo da lavoura.
Foram horas intensas de caminhada, observação, registros, mas acima de tudo, aprendizado.
No retorno à sede, fomos surpreendidos com os sabores da fazenda, com o almoço preparado no fogão à lenha e suco de limão colhido do quintal da casa principal – privilégios do campo. Sem dúvidas essa imersão jamais será esquecida, o conhecimento absorvido e memórias serão levados para sempre pela reportagem.
Claudeci Lima/HNT
Na trilha da nascente da Fazenda Itapiranga durante entrevista com o produtor rural Rogério Berwanger.
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