A Associação dos Docentes da Universidade do Estado de Mato Grosso (Adunemat) protocolou uma ação civil pública por dano moral coletivo contra o prefeito de Cuiabá, Abilio Brunini (PL). A entidade pede indenização de R$ 100 mil e a remoção imediata de publicações nas redes sociais após o gestor associar professores e estudantes de universidades públicas ao uso de drogas e a facções criminosas na semana passada.
A ação foi distribuída na terça-feira (20) para a Vara Especializada em Ações Coletivas da Comarca de Cuiabá e aguarda apreciação do pedido. O episódio ocorreu na noite de 13 de outubro, durante a inauguração do espaço de campanha ‘Casa 22’ em Cuiabá, voltado ao apoio da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à presidência da República.
Durante o discurso, Abílio fez referência direta a estudantes e professores da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), associando as comunidades acadêmicas ao consumo de drogas e utilizando expressões depreciativas para se referir às instituições.
“Então eu quero pedir aos estudantes da universidade pública no estado de Mato Grosso, seja a Unemat, seja a UFMT, aos estudantes e professores: saiam às ruas, peçam voto pro Lula, vai com o seu baseado, com as suas drogas, vai com a maconha, vai com a cocaína, vai com a camisa do Che Guevara, vai com toda a porcaria que está instalada dentro das nossas universidades públicas às ruas pedir voto”, afirmou o prefeito em vídeo publicado nas redes sociais.
A presidente da Associação dos Docentes da Unemat (Adunemat), professora Dinairan Dantas Souza, criticou as declarações e afirmou que o prefeito fez acusações graves contra a comunidade universitária sem apresentar provas. Segundo ela, a ação judicial busca responsabilizar o gestor pelas falas.
“É uma postura muito grave quando um agente público acusa outros agentes, outros grupos sociais, categoria profissional de crimes, sem que para isso tenha nenhuma prova material para tal acusação. É uma forma extremamente irresponsável pela qual agiu o prefeito de Cuiabá, e, por essa razão, nós entramos com o processo”, declarou.
O processo pede que sejam retiradas imediatamente das redes sociais do prefeito as gravações feitas sobre as declarações, que Dinairan classificou como lamentáveis por desrespeitar pessoas com opiniões políticas divergentes. Ainda, o processo pede uma indenização de R$ 100 mil por dano moral coletivo, valor que será destinado para programas da Unemat voltados à defesa da liberdade acadêmica.
A entidade solicita também que Abilio seja obrigado a publicar o dispositivo da sentença em seus perfis oficiais por 15 dias e proibido de reiterar acusações contra os docentes sob pena de multa.
UFMT aciona Advocacia-Geral da União
As declarações de Abílio Brunini também provocaram reação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que anunciou medidas jurídicas após o prefeito associar estudantes e professores de instituições públicas ao uso de drogas. Em nota divulgada na quarta-feira (14), a universidade repudiou as generalizações, defendeu o respeito à diversidade de opiniões e informou que o caso seria encaminhado à Procuradoria-Geral Federal para análise e eventuais providências.
“Combater as drogas não significa combater os jovens. Diante dos ataques à comunidade universitária, no cumprimento de suas responsabilidades como gestora, a reitora, professora Marluce Souza e Silva, encaminhará a questão à Procuradoria-Geral Federal junto à Universidade para análise e providências cabíveis”, informou a instituição.
Procurada novamente nesta quinta-feira (22), após a abertura da Ação Civil pela Unemat, a reitoria informou que ainda não houve novas movimentações internas sobre o tema.

Continuidade de ataques coordenados às universidades
Os campus da UFMT, Unemat e da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) têm sofrido inúmeros ataques de forma coordenada pela direita do estado. Nesta quinta-feira (22), os estudantes do Coletivo Para Todos Mato Grosso denunciaram mensagens de ódio e ameaças feitas em grupos de WhatsApp associados ao PL Jovem.
Ainda, o senador recém-eleito, José Medeiros (PL), apresentou representações ao Ministério Público Eleitoral (MPE) para apurar possível uso político da UFMT em manifestações de apoio à candidatura presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O parlamentar também protocolou requerimento ao Ministério da Justiça e Segurança Pública para obter informações sobre ocorrências de tráfico de drogas e medidas de combate ao crime na instituição, associando a imagem de estudantes à drogas, assim como Abilio.
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