A fé move montanhas – mas, no muito das vezes, num mundo de interesses poderosos a se imporem até sobre o amor verdadeiro, acaba que, a montanha removida, cai sobre o fervoroso crente; aí, ali fica preso, sem jeito próprio para viver por si, carecendo de ajuda para a certeza de dizer, até quem ele é, pra si mesmo. É que nada é total em si, definitivamente: tudo está pleno do bastante para ser e não ser o que aparenta e o que é; desse jeito, a aparência é só o tempo do preparo do que ela não será daqui a um pouquinho. Repare que na coisa principal há muitas miudezas parecendo desnecessárias, mas, sem elas, aquela fortaleza não se forma no que é visto; pois, tudo que está sendo, pode não ser, e deveria não ser, se o amor verdadeiro exigisse que não fosse: é que este, é que é maior, ao fim do dito e do não dito. Daí, Ele perguntar-ensinando: “Se o seu burro cair num poço, deixá-lo-á lá, porque é sábado?”. Não se deixar guiar por asnices, é a lição desse dito: vá lá, salve o coitadinho, porque “o sábado foi feito pro Homem, não o Homem para o sábado”!Gente é o que se faz pelo próprio trabalho, nem por isso o trabalho deve ser alevantado superiormente, face a quem o faz: este é que é maior – né, não?!
Afonsinho, menino diferente, falava com sua sombra, com o vento, gritava com passarinhos como os outros meninos gritavam entre si, se ria das birutices das nuvens zanzando no céu; daí o pai dizer dele: “esse menino nasceu p’ras coisas que não adianta a vida: é avoado, não compreende as coisas ensinadas no falar da gente. Mas, óia, sempre atende o mando: vê a gente fazer, e faz igual, mas no seu prazo…”. Na rocinha de toco, pra onde o pai o levava por obrigação de lhe dar o que fazer (“pra não endoidar de vez”, como dizia), ele carpia e fazia tudo o que o pai mandava; fazia bem feito no seu modo, as tarefas todas, sem reclamação, nem amuos de preguiçoso. O pai o mandava fazer, e ele trabalhava se esmerando, tudo num silêncio desconcertante de alegria cândida, e como se não sentisse cansaço; e assim foi indo, de jeito que, com o tempo, o pai garrou mais amor por Afonsinho, e cuidados, tanto que deu de sentir certo remorso ao lhe mandar fazer alguma coisa: “será certo, pedir isso pr’ele?”
No correr dos anos, deu-se verificado no falar dos outros: “Afonsinho é trabaiador!”. Mas, tinha aquilo de falar sozinho, de se ri de graça que só existia dentro de si; além de tratar tudo sem compromisso de multiplicar coisas, pro resultado reluzir ouro…
Com o desjeito dele para as letras e os números, e de saber da mangação dos outros meninos com ele, o Pai decidiu de ele não ir mais à Escola; dizendo definitivo à mulher-esposa: “Margarida, antes e além de Escola tem vida: vamos deixar o bichinho viver sem essa agonia de ter que ir lá; ele não tem futuro nenhum com o saber dado lá, não…”. A Mãe não aprovou aquilo, reclamou, não queria que assim fosse: tinha esperança que ele desenvolvesse algum aprender; mãe tem sempre esperança boa no filho, até para o que está no leito-final. Assim, para um que nasce sem os trejeitos da normalidade dos demais, ela o cobre com todos os cuidados e esperanças, num vigiar diuturno, a sofrer com ele os aperreios do seu viver singular, atormentado pela normalidade do viver feito de pressa e ganhos; porque é parte entranhada em si, no prazo eterno de nove meses iniciais, quando sua alma se refez nele, e nenhum parto ou partida os no mais. Homem nenhum vive isso, então, não alcança saber a profundeza desse existir; aí ela disse: “José, olhe, ele precisa de ter o conhecer que a gente não sabe dar; quem sabe, num repente, ele garre a aprender…”.
Fez-se a vontade do Pai. Que não tinha bruteza no seu decidir, nem desamor: nos seus consigos, queria livrar o menino de chacota, de maledicência das línguas ferinas, que são muitas demais no mundo, a comentarem as insuficiências do coitadinho. Ainda que não soubesse, ele-Pai sentia, que pranas não plenificam os ambientes totalmente, de jeito que sempre há algumas vagas nestas vitalidades; que, mesmo minúsculas aos vagalhões dessa energia, ali vicejam e podem ressoar, e ressoam e se acoitam nos ouvidos aprendizes dos escolares, as degenerescências das perversidades – ditas, faladas, gritadas, com a intenção egoística do maledicente de se fazer grande, sobre a fragilicec do outro. O viver, nera pra ter essa parte ruim, não; porque felicidade e alegria não nascem, nem podem nascer, de sofrimento: é outro, o seu tecimento. O certo, é que Afonsinho foi crescendo, virando rapazote e, mal e mal aprendeu a escrever o próprio nome: Afonso dos Santos Pereira; nada mais, de leitura e escrita, aprendeu. Mas, nesse tempo, deu de olhar atencioso, silentemente, o pai e os outros fazerem as coisas; olhava devagar, vendo minudências e, depois de bem ver, enxergava e dizia se certificando: Eu fazo também!
Assim, aprendeu fazer as coisas que a sustança do viver pedia aos da sua idade, ali: capinava, roçava, lavava as vasilhas quando a mãe lhe pedia, varria o terreiro da casa, colhia o que tivesse no tempo de colher, buscava lenha; mas, no demorar em seus olhares, fez-se habilidoso nas artes das coisas mais difíceis, que lhe encantava-desafiando mais: trançar o couro para laços, fazer sela, arreio, bolsas e malas, esculpir cabos de faca e facão em chifres e ossos e madeira – e gostava de cultivar plantas, em diálogos belíssimos. Aí, quando não estava com o Pai nos fazeres da roça, achavam-no na oficina do Salviano Guasqueiro; vendo-o fazer sua arte, ficava sentado num tamborete baixinho, num silêncio de até Salviano se esquecer dele. Querendo aprender trabalhar o couro, olhava o artesão medir cada peça repetidas vezes antes de cortar, pra não perder o material; prestava atenção nas mãos do Salviano a trançar as tiras finas de couro, a manejar facas e canivetes de gumes prateados, de tão afiados que eram, cortando suavemente cada peça; olhava admirando a destreza com que furava o couro com o sovela, por onde passaria uma tira mais fina, costurando; às vezes, fazia pequenos gestos com as mãos, como se estivesse a manipular o couro na feitura da peça que Salviano estava fazendo – e se abria em riso de admiração, quando ele lhe mostrava a peça terminada…
Afonsinho não pareceu sentir falta de ir ao Grupo Escolar: gostava da companhia do Pai, do que fazia na roça, achava que os bichos todos, os de criação e os brutos soltos ao natural, gostavam de ouvi-lo; tal como ele os ouvia, e se ria sem alarde: risadaria, às vezes, é só riso desossado de felicidade. De algum jeito sentia que, se a algazarra do riso, por uma anedota bem contada, desse em felicidade, não haveria os aborrecimentos que havia. Nos milenares itinerários da Humanidade, a felicidade foi-se fazendo melindrosa, ensimesmada em seus comedimentos risonhos, quando viu riso frouxo sendo molhado por choro doído. Daí que os olhares que olhavam Afonsinho recolhido nas suas imaginações e silêncios, a se mostrar pela leveza de gestos livres do interesse de ganho, aqueles olhares cegos, viam-no com as retinas plenas das necessidades de um mundo de interesses; aí se desinteressavam, ao desprezo, de Afonsinho, como ao que não tem valimento nenhum. Não viam importância naquele aconchego dele consigo, não enxergavam no seu jeito, o universo translúcido dos que nascem para as riquezas intangíveis, que não se dão às mãos e olhos lassos: ele era o avesso do que se deixa expor no balcão do mercado – e via tudo pelo sentir auscultado no pulsar do viver dos bichos, do vento nas copas das árvores, encantando-se com o bater dos corações, com caminhares e voos de pés e patas e asas treinadas para se afastarem do desviver…
Os diuturnos sofreres de Mãe, maiores com as dissonâncias de filho singular, face a um riso aberto dele, mostrando a alminha incomum inocente, arrefecem-se, à alegria! Margarida aprendeu a tecer contentamentos com minúsculos gestos de Afonsinho, feitos ao modo de outra normalidade; mas, sabia da fragilidade disso, face à dureza do mundo desamoroso: “José, Afonsinho vai ficar homem feito, não terá mais nem a gente, nem a engraçadice de criança: cuma vai viver, gente?”. Talvez, por ver o seu desenvolver prático no fazer das coisas, o pai não tinha aquela agonia: “Viverá dele mesmo, do que ele é!”, respondia.
Num dia de fazeres na casa de farinha, quando pôs sentido na destreza e na satisfação de Afonsinho descascar os tubérculos, ali, pelas frestas do seu entender rude das coisas, a Mãe enxergou outra consonância para o ser e o viver: Afonsinho era já, o que lhe era preciso ser! Aí, Margarida se alegrou num gozo sem fim, vindo das suas profundezas maternas, de jeito que no seu jeito e modos viu Afonsinho sendo tão, quanto os demais – mas, revestido por uma singularidade terna e bonita; aí, descansou a faca sobre as raízes e, num carinho dengoso, passou a mão na cabeça de Afonsinho, trazendo-o pra si, num abraço de afeto sem termo. Ele se amoleceu na carícia, ouvindo-a dizer, mais pra si, que pra ele e o Pai: “É trabaiador, meu filho!”. José riu, riso de contentamento e compaixão, mas sem alcançar a alma inquieta da mulher: “Os outros precisam enxergar Afonsinho assim, também…”.
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