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Entre falta de emprego e avanço de facções, eleitores de Cáceres pedem mais segurança

A sensação de insegurança mudou a rotina de moradores de Mato Grosso e se tornou uma das principais preocupações para quem vive em municípios com a presença do crime organizado.

Em Cáceres (MT), na região de fronteira com a Bolívia, a população aponta, ainda, outro problema por trás do avanço da criminalidade: a falta de emprego e de oportunidades para os jovens. Esses desafios são abordados no 2º episódio da série “Me escute, porque eu decido”, da TV Centro América.

O município cacerense é cortado pela BR-070, uma das principais ligações com a fronteira e importante para o transporte de passageiros e cargas. Mas, a rodovia também é usada por facções criminosas em rotas de tráfico de drogas, transporte de veículos roubados e contrabando.

O cenário contribuiu para o aumento dos conflitos entre grupos rivais pelo domínio de territórios e deixou moradores mais preocupados com a própria segurança.

Morador de Cáceres desde 1972, o gestor imobiliário José Bento acompanhou de perto as mudanças na cidade. Para ele, o problema não pode ser tratado apenas pelo viés da repressão, já que a falta de emprego, de indústrias e infraestrutura também abre espaço para que jovens acabem atraídos pelo caminho do crime.

“Se você tem emprego, se tem geração de emprego, a criminalidade cai lá embaixo”, afirmou o imobiliário em entrevista ao repórter José Pereira.

A preocupação já mudou até a forma como famílias se protegem dentro de casa. Na residência de José, por exemplo, muros altos e câmeras foram instalados como medida de prevenção, mesmo sem ele ter presenciado uma ocorrência no local.

A lógica é simples: se antes a segurança era uma preocupação principalmente do poder público, hoje também passou a fazer parte da rotina dentro de casa.

Crime organizado espalha preocupação

O desafio não está restrito à região de fronteira. Sorriso, no norte de Mato Grosso, também passou a aparecer no mapa da violência relacionada ao crime organizado.

Em 2024, a cidade registrou uma das maiores taxas de mortes violentas do país, com 77 homicídios a cada 100 mil habitantes, segundo os dados apresentados na reportagem.

Casos de execuções e mortes atribuídas a disputas e ações de facções passaram a fazer parte do noticiário local e aumentaram a preocupação dos moradores.

José Bento acompanhou mudanças na rotina e aumento de criminalidade em Cáceres. – Foto: TV Centro América

Mas, para os eleitores ouvidos pela série, segurança não se resume aos índices de homicídios ou à atuação das forças policiais. O problema também chega dentro de casa.

Violência contra a mulher também preocupa

Em Mato Grosso, a violência contra a mulher aparece como outro desafio que precisa entrar na discussão sobre o futuro do estado. De acordo com dados apresentados na reportagem, o Ministério Público estadual já havia registrado quase 30 mil ocorrências de violência contra mulheres no ano.

Os casos envolvem diferentes tipos de agressão.

A cuiabana Lucy Lene conhece essa realidade. Ela contou à reportagem que viveu um relacionamento marcado por diferentes formas de violência e que, no início, chegou a acreditar que algumas situações eram normais.

Primeiro vieram a violência psicológica e o afastamento de amigos e familiares. Depois, a dependência financeira e a violência patrimonial. Até que as agressões físicas começaram.

“Eu saí sem nada, com uma mão na frente e outra atrás”, afirmou.

Domínio de facções na fronteira e falta de emprego estão entre preocupações de eleitores em Cáceres. - Foto: TV Centro América
Domínio de facções na fronteira e falta de emprego estão entre preocupações de eleitores em Cáceres. – Foto: TV Centro América

Com a ajuda da família, Lucy conseguiu recomeçar. Hoje, porém, diz que ainda carrega o receio de que outras mulheres passem pelo mesmo, principalmente por ter uma filha.

Para ela, o enfrentamento da violência precisa ir além das leis. É necessário garantir apoio e condições para que mulheres consigam sustentar suas famílias e reconstruir a própria vida.

O que os eleitores querem?

As histórias apresentadas no segundo episódio da série especial da TV Centro América mostram que demandas diferentes acabam se encontrando em um mesmo ponto: a busca por uma vida mais segura e com mais oportunidades.

Para moradores de Cáceres, combater o crime passa também por gerar empregos e criar alternativas para os jovens. Para mulheres vítimas de violência, o pedido é por proteção, apoio e políticas que garantam autonomia.

No fim, são problemas que chegam às urnas junto com os eleitores. E, diante das escolhas que o período eleitoral coloca à população, a mensagem deixada pelos entrevistados é de que eles querem ser ouvidos antes de decidir em quem votar.

O terceiro episódio da série, que abordará o tema segurança pública, vai ao ar nesta terça-feira (8).

O que dizem os candidatos sobre a insegurança?

O avanço das facções criminosas, o domínio territorial, tráfico de drogas, crimes no campo e a situação do sistema prisional aparecem entre os principais desafios de segurança pública nos planos de governo dos candidatos ao governo de Mato Grosso.

Segundo o relatório Cartografias da Violência na Amazônia, divulgado em novembro do ano passado em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Mato Grosso aparece com 92 das 142 cidades (65,2%) dominadas ou disputadas por facções criminosas como Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC).

Diante desse cenário de insegurança, os candidatos apresentam propostas que seguem caminhos diferentes, como analisou o Primeira Página.

Avanço de facções criminosas e mudanças no sistema prisional estão entre principais focos de propostas de candidatos ao governo de MT. - Foto: Reprodução
Avanço de facções criminosas e mudanças no sistema prisional estão entre principais focos de propostas de candidatos ao governo de MT. – Foto: Reprodução

Há planos que apostam no fortalecimento da inteligência e da tecnologia; outros priorizam a prevenção e as políticas sociais, enquanto alguns defendem maior rigor dentro dos presídios, o isolamento de lideranças criminosas e a ampliação do policiamento.

Entre as propostas, o sistema prisional aparece como um dos principais pontos de atenção. Em alguns planos, as cadeias são descritas como uma espécie de “escola de recrutamento do crime organizado” ou “escritório do crime”. A avaliação é de que mudanças no sistema prisional seriam necessárias para frear a influência das facções

A atuação nas fronteiras e nos limites territoriais de Mato Grosso também está entre as prioridades. Alguns candidatos propõem, por exemplo, o uso de drones, inteligência e integração de dados para monitorar a fronteira internacional, rotas de fuga e áreas consideradas dominadas por facções.

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