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Neto de Dona Domingas moderniza gestão e transforma Flor Ribeirinha em referência da economia criativa | HiperNotícias

“Fomos vaiados”. A declaração parece contraditória para os admiradores do Flor Ribeirinha, grupo de Cuiabá tetracampeão mundial de folclore. Mas foi exatamente o que aconteceu na estreia de Avinner Silva, de 35 anos, atual diretor artístico da companhia e neto de Domingas Leonor da Silva, a Dona Domingas, fundadora do grupo.

Avinner tinha apenas 10 anos quando saiu chorando do palco após a reação negativa da plateia durante uma apresentação em uma escola de Cuiabá. O episódio, que poderia tê-lo afastado da dança, tornou-se combustível para uma trajetória dedicada à valorização da cultura popular.

Eu senti o  preconceito

As lágrimas de Avinner foram contidas pela avó. “Ela falou que eles não sabiam o que era nossa cultura. Eu senti o preconceito de perto. E essa foi a minha motivação para que, quando ingressasse na faculdade, pudesse entender aquelas marcas. Ao longo dos meus estudos, percebi que isso é algo estrutural”, relembrou.

Reprodução/Arquivo pessoal

Avinner Silva

Avinner Silva em sua primeira apresentação com o Flor Ribeirinha.

Décadas depois, o menino que foi rejeitado por representar o siriri e cururu ajudou a transformar o Flor Ribeirinha em uma referência da economia criativa. Sob sua gestão, o grupo expandiu sua atuação para além das apresentações culturais, investindo na formação de jovens da comunidade São Gonçalo Beira Rio, bairro onde estão inseridos, gerando oportunidades de trabalho, diretas e indiretas, para 80 profissionais da cultura. Além de movimentar a economia local por meio do turismo com projetos voltados à valorização das tradições.

“Embora os números variem ao longo do ano, podemos afirmar que dezenas de famílias têm parte da sua renda vinculada às atividades desenvolvidas pelo Flor Ribeirinha. Mais do que um grupo cultural, nos tornamos uma rede de oportunidades que gera trabalho, renda e inclusão social dentro da comunidade”, falou Avinner.

BUSCA POR CONHECIMENTO

A busca por respostas o levou à universidade. O seu primeiro flerte foi com a Arquitetura na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ao ao conhecer a disciplina de Antropologia encontrou ferramentas para traduzir a história do siriri e cururu. A descoberta o conectou ao curso de Ciências Sociais.

Foi nesse contexto que nasceu o projeto de extensão Bataru. O nome com som forte vem do idioma do povo indígena bororo, presente no Pantanal mato-grossense, e significa “mensagem”. A escolha não foi por acaso. Os bororos fazem parte da ancestralidade familiar de Avinner. Sua tataravó, avó de Dona Domingas, pertencia ao povo bororo.

De forma natural, uma ponte é construída entre a UFMT e o São Gonçalo Beira Rio. Professores e alunos passam a frequentar o Quintal do Flor Ribeirinha onde as atividades da companhia são desenvolvidas, reforçando o que Avinner já havia identificado: a potencialidade que o grupo carregava.

Fui entendendo sobre projetos, gestão cultural, a dinâmica da cultura como profissão

“Fui entendendo sobre projetos, gestão cultural, a dinâmica da cultura como profissão. Precisamos de estratégias e mecanismos para fortalecer o que a gente faz organicamente, o que fazemos com amor devido a nossa vivência cultural e heranças que carregamos”, explicou o neto de Dona Domingas.

Os ribeirinhos também passam a circular na UFMT, desenvolvendo oficinas sobre arte em cerâmica e dança. A parceria rende a Dona Domingas reconhecimento acadêmico. A fundadora do grupo folclórico é reconhecida com o título de doutora “Honoris Causa”, em 2019, quando a universidade completa 49 anos. A honraria foi uma indicação do professor titular, Fernando Tadeu de Miranda, que à época estava pró-reitor de Cultura e Vivência. O Conselho Universitário da UFMT aprovou a concessão por unanimidade.

Avinner transpõe o conhecimento obtido em sala de aula ao Quintal, aperfeiçoando projetos desenvolvidos pela avó desde que fundou o grupo, em 1993. Oficinas de cerâmica e costura do projeto Flor da Idade, por exemplo, mantiveram o caráter social e terapêutico, mas passaram a incorporar uma perspectiva de geração de renda, contribuindo para o sustento dos participantes e para a manutenção das atividades do grupo.

Reprodução/Arquivo pessoal

Dona Domingas

Reprodução/Arquivo pessoal Dona Domingas, fundadora do Flor Ribeirinha, foi reconhecida com o título de doutora “Honoris Causa” pela UFMT.

SEMENTE RIBEIRINHA

No quintal, as tradições do siriri e cururu começam a ser repassadas cedo. Por meio do projeto Semente Ribeirinha, 60 crianças entre 6 e 12 anos são atendidas e têm contato com as manifestações culturais. As aulas são ministradas por professores de música e corégrafos formados pelo Flor Ribeirinha.

Os pequenos são apresentados ao universo do rasqueado, com letras contagiantes que embalam o siriri e as rezas do cururu. É nessa jornada de conhecimento ancestral e lúdico, que as crianças são conhecem os instrumentos típicos usados para tocar as canções folclóricas: a viola de cocho, o ganzá e o mocho.

O Semente é a base do Flor Ribeirinha. Nas aulas, mais do que os movimentos, há também o fortalecimento do corpo dos futuros dançarinos, para que suportem a intensidade dos ensaios – realizados três vezes por semana com cerca de duas horas – e o ritmo acelerado das apresentações.

A professora de dança Layanni Couto, de 21 anos, trilhou os primeiros passos no Semente Ribeirinha. Ao chegar a idade limite do projeto, passou para o grupo que faz as apresentações. Em 2023, ela viajou com o Flor Ribeirinha para a Coreia do Sul, onde o grupo venceu o ‘Cheonan World Dance Festival’ pela quarta vez, colocando seu nome na história mundial da dança como tetracampeões. À época, Layanni estava grávida da primogênita, Mayla Couto, de 1 ano, que ainda não aprendeu a falar, mas já imita os movimentos do siriri ao assistir a mãe no palco.

“Ela estava na barriga e já dançava comigo em todas as apresentações”, brincou Layanni.

Camila Ribeiro/HNT

Layanni Couto, Mayla Couto

A coreógrafa Layanni Couto e sua filha Mayla Couto.

A jovem atua como professora de dança em uma escola de tempo integral da rede municipal de Cuiabá. Na sala de aula, Layanni atua como multiplicadora cultural, compartilhando conhecimento e contribuindo para a formação de novos artistas da comunidade São Gonçalo Beira Rio.

“Graças ao Flor Ribeirinha eu tenho a minha profissão, eu tenho o meu serviço. Hoje, eu consigo levar a cultura de Cuiabá, que é linda, para qualquer lugar, passando agora de geração para geração”, falou Layanni.

DO QUINTAL AO ALTAR

Mariana Laura, de 27 anos, também foi aluna do Semente Ribeirinha. Hoje, atua como coreógrafa do projeto voltado às crianças e integra a equipe responsável pela preparação do grupo principal ao lado de Avinner. Com a Flor Ribeirinha, carimbou o passaporte para apresentações e festivais em países como Alemanha, Rússia, França, Bulgária, Bélgica, Estados Unidos, Croácia, Romênia, Eslovênia e Emirados Árabes Unidos.

Todo o repertório construído ao longo dessa trajetória é transmitido às novas gerações formadas na base da companhia.

“É sempre uma emoção muito grande. Fico muito grata por poder repassar esses saberes às crianças. Quando vejo a alegria delas, volto no tempo e me lembro de como eu me sentia quando estava do outro lado”, contou Mariana.

A cultura popular também marcou momentos importantes da vida pessoal da coreógrafa. Casada com Michel Cordovil, de 30 anos, bombeiro militar e bailarino da companhia, Mariana levou o siriri e o cururu para a cerimônia de casamento realizada em maio deste ano, em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. O casal dançou com os convidados os ritmos que embalaram a trajetória dos dois dentro do Flor Ribeirinha.

“Não tínhamos como deixar o siriri de fora de um momento tão importante”, afirmou Michel.

Camila Ribeiro/HNT

Michel Cordovil, Mariana Laura

O casal Michel Cordovil e Mariana Laura.

O bailarino concilia a rotina no Corpo de Bombeiros com os ensaios e apresentações do grupo. A reportagem acompanhou parte dessa dedicação durante a apresentação do Flor Ribeirinha na abertura da FIT Pantanal, realizada no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá.

Veterano, Michel ocupou posição de destaque no espetáculo, liderando os bailarinos mais jovens. A estratégia de mesclar integrantes experientes e novatos faz parte do processo de formação desenvolvido pelo Flor Ribeirinha.

Ao longo da apresentação, Michel assumiu diferentes personagens que ajudam a contar a história do povo mato-grossense. Em uma das cenas, representou um cacique indígena. Depois, entrou em cena vestido com o traje tradicional do siriri.

Camila Ribeiro/HNT

Michel Cordovil

Michel Cordovil, de 30 anos, bombeiro militar e bailarino do Flor Ribeirinha na FIT Pantanal.

GERAÇÃO DE EMPREGOS

A preparação para a apresentação na FIT Pantanal foi um retrato do nível de profissionalização do Flor Ribeirinha. Após receber o convite do Sistema Fecomércio-MT (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Mato Grosso), o grupo formalizou em contrato o cachê do espetáculo e toda a estrutura necessária.

Na noite do evento, bailarinos e músicos chegaram com duas horas de antecedência ao Centro de Eventos Pantanal. Antes de subir ao palco, os músicos participaram da passagem de som. Enquanto isso, os bailarinos cuidavam da maquiagem e organização dos figurinos.

O Flor Ribeirinha, por meio dos projetos e dos cachês, movimenta a economia de muitas pessoas

A estrutura mobilizada para o espetáculo evidencia a complexidade da operação. No palco, instrumentos tradicionais como a viola de cocho, o ganzá e o mocho dividiram espaço com o surdo, a bateria, violões, saxofone, teclado e sete vozes. Entre os cantores estava Dona Domingas, vestida com um traje preto coberto por lantejoulas. Ao final da apresentação, músicos e bailarinos receberam cachê artístico pelo trabalho realizado.

Avinner Silva ressalta que a profissionalização da companhia permitiu transformar a cultura popular em uma fonte de oportunidades para dezenas de famílias da própria comunidade São Gonçalo Beira Rio.

“O Flor, por meio dos projetos e dos cachês, movimenta a economia de muitas pessoas. Diretamente, são entre 15 e 20 pessoas trabalhando na estrutura permanente. Considerando os projetos e as apresentações realizadas ao longo do ano, mais de 80 pessoas são beneficiadas”, detalhou.

As vagas de empregos vão além das contratações de bailarinos e músicos. A operação do Flor Ribeirinha demanda costureiras, bordadeiras, artesãos, cenógrafos, técnicos de som, iluminação, produtores culturais, motoristas, cozinheiras, fotógrafos, videomakers, designers, montadores de estrutura, equipe administrativa e profissionais de comunicação.

“Dependendo do período e dos projetos em execução, dezenas de pessoas trabalham direta ou indiretamente com as atividades do grupo”, explica o diretor artístico.

GUARDIÃO DA CULTURA PANTANEIRA

O cantor Edmilson Maciel ocupa lugar cativo no coração dos mato-grossenses pelos sucessos da Banda Terra, de Barra do Garças (511 km de Cuiabá). No auge da trajetória do grupo, na década de 1990, ele volta a morar na capital e tem um choque.

“Eu não conhecia nada da cultura regional”, lembra.

Na mesma época, ele assistiu a uma apresentação do Flor Ribeirinha. Edminson ficou encantado com as cores dos figurinos, a energia dos bailarinos e o repertório que parecia hipnotizar a plateia. “Eu me apaixonei e falei: um dia vou estar aí”.

Camila Ribeiro/HNT

Edmilson Maciel

O cantor Edmilson Maciel.

A partir daquele momento, Edmilson buscou se aproximar do núcleo artístico da companhia. O relacionamento deu origem a uma parceria duradoura. Atualmente, Edmilson está entre as vozes que se apresentam ao lado de Dona Domingas.

O Flor Ribeirinha, que é um repassador de conhecimento, de cultura e movimenta a economia criativa

A convivência com o Flor Ribeirinha levou o cantor a uma imersão nas próprias raízes culturais, influenciando sua forma de produzir arte. Além de cantar e compor, passou a declamar poesias e escreveu a peça Mato Grosso em Cena. Em 2024, recebeu da Acadepan (Academia Lítero-Cultural Pantaneira) a comenda de Guardião da Cultura Pantaneira.

“Mas o que me emociona e me deixa bastante orgulhoso é quando olham para mim e falam: ‘está aí a cara da cultura mato-grossense’. Isso é um presente. E quem me deu isso foi o Flor Ribeirinha, que é um repassador de conhecimento, de cultura e movimenta a economia criativa”, afirmou Edmilson Maciel.

CHAMARIZ PARA TURISTAS

O turismo cultural é outro pilar trabalhado pelo Flor Ribeirinha. A companhia estruturou um percurso histórico que explora uma das maiores vocações do São Gonçalo Beira Rio: seu patrimônio cultural e histórico. Considerado o marco zero de Cuiabá, o bairro está às margens do Rio Cuiabá e concentra cerca de 30 peixarias e restaurantes conhecidos pelo café colonial.

Ao caminhar pelas ruas estreitas da comunidade, a sensação é de atravessar um território sagrado, marcado pela memória e tradições ribeirinhas. Cercado pela vegetação e embalado pelo som das águas do Rio Cuiabá, o bairro preserva modos de vida que atravessam gerações.

O cenário tem atraído visitantes por meio de uma parceria entre o Flor Ribeirinha e a agência de turismo Megattur.

O percurso histórico tem início na Praça Cândido Manoel da Silva, conhecida como Praça do Marco Zero. No local, um com 17 metros de altura, imortaliza as embarcações utilizadas pelos bandeirantes que chegaram à região em busca de ouro. A praça também abriga uma imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, padroeiro da cidade.

Ao longo do trajeto, integrantes do Flor Ribeirinha interagem com os visitantes. Em diferentes pontos do percurso, os bailarinos declamam poemas e compartilham histórias sobre a formação de Cuiabá utilizando figurinos inspirados em personagens que marcaram a construção da identidade mato-grossense.

A próxima parada é o Centro Cultural administrado pela Associação dos Artesãos de São Gonçalo Beira Rio. Na entrada, a escultura de um casal dá boas-vindas aos turistas. A mulher, vestida com a tradicional saia rodada do siriri, e o homem com a viola de cocho, reforçam que aquele é um dos berços da cultura popular cuiabana.

No espaço, os artesãos apresentam peças de cerâmica produzidas manualmente com técnica reconhecida como patrimônio cultural imaterial de Cuiabá pela Lei Municipal nº 7.486, de 27 de março de 2026.

O circuito termina no Quintal do Flor Ribeirinha. Ali, turistas acompanham apresentações de siriri e cururu e têm contato direto com as manifestações culturais.

Percurso histórico

 

REPENSANDO A GESTÃO

O economista, Murilo do Espírito Santo, é coordenador administrativo do Flor Ribeirinha. Segundo ele, quando o grupo começou, há 33 anos, não havia um núcleo administrativo. É a partir do aumento das demandas que essa necessidade é compreendida pelos integrantes para viabilizar o crescimento do grupo.

Com a projeção de Avinner a diretor, a gestão é repensada. Ele começa a organizar a operação, implementando processos. Murilo admite que sem essa visão estratégica, o grupo não conseguiria alçar voos maiores.

“Sem essa organização é impossível. Tudo deve ser formalizado, temos que seguir muitas regras, muitas exigências dos contratantes. Até mesmo para participarmos de festivais é preciso ter toda uma segurança jurídica e administrativa”, afirmou Murilo.

Camila Ribeiro/HNT

Murilo do Espírito Santo

O economista, Murilo do Espírito Santo, coordenador administrativo do Flor Ribeirinha.

A superintendente de Desenvolvimento da Economia Criativa da Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso (Secel-MT), Keiko Okamura, faz a mesma leitura do coordenador administrativo. Keiko classifica a entrada de Avinner na diretoria do Flor Ribeirinha como um “marco de crescimento”.

Reprodução/Arquivo pessoal

Keiko Okamura

A superintendente de  Economia Criativa, Keiko Okamura.

“Ele chega com uma visão de gestão e organização. Além disso, desenvolve produtos ligados à economia criativa e ajuda a estruturar o grupo, que passa a se projetar internacionalmente ao participar de festivais realizados fora do Brasil, dos quais é campeão”, avaliou Keiko.

A partir dessa reestruturação, a superintendente da Secel-MT observa que há um impacto na forma como os cuiabanos passam a compreender as próprias raízes. De acordo com Keiko Okamura, ao elevar a cultura mato-grossense, indiretamente, Avinner inicia um movimento de pertencimento.

“Ele gera valor a partir da nossa cultura, de tudo que ele tem criado, ampliando a participação da comunidade, não só como consumidores, mas também como atuantes, dentro desses projetos que são executados ali. E ele tem essa visão empreendedora, de fato, que traz essa possibilidade de manutenção das atividades e também dessa sustentabilidade econômica das pessoas envolvidas e da própria comunidade”.

ECONOMIA CRIATIVA EM MT

O caso do Flor Ribeirinha está inserido em um setor que movimenta milhares de negócios em Mato Grosso. Dados do Sistema Estatístico Nacional (SEN), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam a existência de 87,3 mil empresas ligadas à economia criativa no estado.

Considerando que MT tem 142 municípios, a média é de 620 empresas ativas a cada cidade. Na prática, Cuiabá concentra 23,5 mil das empresas de economia criativa.

Os microempreendedores individuais (MEIs) lideram esse universo, somando 56,4 mil registros ativos. As microempresas (ME) representam 24,5 mil empreendimentos, enquanto as empresas de pequeno porte (EPP) totalizam 4,8 mil.

Em Cuiabá, os MEIs também são maioria. Conforme o IBGE, eles representam o contingente de 12,9 mil das empresas.

Das 87,3 mil empresas ativas em MT, os homens são responsáveis por 47,1 mil, o equivalente a 52,9%. As mulheres estão à frente 42 mil ou 47,1%.

Na capital mato-grossense, eles também estão respondem pelo maior volume de CNPJs: gerenciando 13,4 mil das empresas ou 55%; enquanto elas administram 11 mil das empresas ou 45%.

ARTISTAS SÃO EMPREENDEDORES

Para a gestora estadual de Economia Criativa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Mato Grosso (Sebrae/MT), Denize Barros, um dos principais desafios do setor ainda é fazer com que artistas e produtores culturais se reconheçam como empreendedores.

“Às vezes, a pessoa não tem conhecimento do que é o empreendedorismo. Ela não consegue pensar em como pode ir mais longe”, afirmou.

Camila Ribeiro/HNT

Denize Barros

A gestora estadual de Economia Criativa do Sebrae/MT (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Mato Grosso), Denize Barros.

Uma série histórica da Receita Federal demonstra que a pandemia impulsionou a formalização dos negócios ligados à economia criativa. Em 2021, Mato Grosso contabilizava 49,5 mil empresas ativas no setor. Em 2026, esse número chegou a 87,3 mil, um crescimento de 76%.

Apesar do avanço, áreas ligadas diretamente à formação artística ainda representam uma pequena parcela desse universo. O ensino de arte e cultura soma cerca de mil empresas ativas no estado, enquanto o ensino de artes cênicas reúne apenas 72 negócios, menos de 0,1% do ecossistema da economia criativa mato-grossense.

Para ampliar a formalização e fortalecer os empreendimentos culturais, o Sebrae/MT desenvolve as Jornadas da Economia Criativa. A iniciativa auxilia artistas e produtores em etapas que vão da modelagem do negócio à inserção no mercado.

Denize ressalta que a busca por resultados imediatos pode comprometer a sustentabilidade dos empreendimentos.

O Sebrae teve papel importante ao ampliar nossa visão sobre empreendedorismo cultural e economia criativa

“As pessoas têm necessidade de ter lucro rápido. Muitas conseguem ganhar dinheiro rapidamente, mas também quebram muito rápido. Falta conhecimento e, principalmente, a compreensão de que elas podem se desenvolver como empreendedoras.”

O próprio Flor Ribeirinha passou por esse processo. Avinner Silva participou de capacitações oferecidas pelo Sebrae/MT e recebeu consultorias voltadas à estruturação dos projetos desenvolvidos no Quintal.

“O Sebrae teve papel importante ao ampliar nossa visão sobre empreendedorismo cultural e economia criativa. Os cursos nos permitiram compreender que a cultura também pode gerar desenvolvimento econômico. Essa visão contribuiu para estruturar melhor nossas ações e fortalecer a sustentabilidade do grupo”, afirmou o diretor artístico.

Reprodução/Arquivo pessoal

Avinner, Flor Ribeirinha

Avinner liderando o Flor Ribeirinha, ao lado da avó Dona Domingas, em viagem internacional.

SONHOS PARA O FUTURO

Embora seu papel seja reconhecido como determinante para levar o Flor Ribeirinha a novos patamares, Avinner Silva ainda carrega inquietações e projeta novos desafios para o grupo. Entre eles está a construção de uma sede própria que funcione como centro de referência da cultura popular mato-grossense.

“O meu sonho é que a gente consiga estruturar uma sede onde possamos, de fato, nos tornar um centro de referência da cultura popular de Mato Grosso. Um espaço para formação continuada de professores, atividades para crianças e adolescentes e ações que promovam qualidade de vida para todas as faixas etárias”, revelou.

O meu sonho é que a gente consiga estruturar uma sede

O projeto também prevê a construção de um teatro destinado a apresentações permanentes voltadas tanto à população local quanto aos turistas.

“Penso em um teatro de cultura popular, com espetáculos para o povo e para os turistas. Um espaço que tenha a estrutura de um grupo tetracampeão mundial de danças folclóricas.”

Avinner reconhece que vive um processo gradual de sucessão dentro da companhia. Para ele, no entanto, não se trata apenas de assumir responsabilidades que antes estavam concentradas na avó.

“Esse processo é sobre continuar um legado. Vovó Domingas sempre vai estar presente na história do Flor Ribeirinha e da cultura popular. Eu carrego isso com muita responsabilidade e amor. A história dela se conecta com a história de Mato Grosso e com a história da cultura popular. Isso vai transcender a vida terrena dela e a minha também”, concluiu.

Reprodução/Arquivo pessoal

Avinner Silva

Avinner Silva em uma das vitórias internacionais do Flor Ribeirinha.

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