Entre as histórias que constroem a identidade de Mato Grosso do Sul, vivem aquelas que mostram o lado mais escuro da sociedade, que escancararam a violência e despertaram o medo. Um único presídio de Campo Grande é lar de dois serial killers, homens que chocaram pela brutalidade dos crimes em épocas diferentes e hoje, sem condição de voltarem para a rua, estão sob “cuidado” do estado.
Na linha cronológica, o primeiro personagem desse texto é Dyonathan Celestrino. O ano era 2008.
No dia 2 de julho, Dyonathan Celestrino fez sua primeira vítima: Catalino Cardena, de 33 anos. O homem foi morto em Rio Brilhante e deixado com braços abertos e pernas cruzadas, a mesma imagem de Jesus Cristo crucificado. Perto do corpo, a palavra INRI – Jesus Nazareno, Rei dos Judeus.
Pouco mais de um mês do crime, a segunda morte. Letícia Neves de Oliveira, de 22 anos, foi encontrada no dia 24 de agosto, nua em cima de um túmulo, com os braços abertos e as pernas cruzadas.
No dia 3 de outubro, a última vítima foi encontrada: Gleice Kelly da Silva, de 13 anos, foi deixada seminua, de braços abertos e pernas cruzadas; exatamente igual às duas primeiras. Mato Grosso do Sul era apresentado ao “Maníaco da Cruz”.

A prisão do assassino em série aconteceu dias depois da última morte, graças a um comentário deixado no Orkut de Gleyce por um usuário chamado Dog Hell 666 (Cachorro do Inferno 666).
Dog Hell era Dyonathan, e a mensagem levou a polícia direto à sua casa; lá foram recolhidas reportagens sobre crimes cometidos pelo Maníaco do Parque, em São Paulo, uma faca tipo peixeira, um canivete sujo de sangue, roupas e celulares que ele teria roubado das vítimas, além de jornais da região com reportagens sobre os ataques do “Maníaco da cruz”.
O rapaz de apenas 16 anos foi apreendido, mas o que deu repercussão ainda maior ao caso foram os detalhes dos crimes. Dyonathan Celestrino afirmou à polícia que matou três pessoas porque elas eram “impuras”. Para chegar a essa conclusão, ele interrogava as vítimas com perguntas voltadas ao comportamento sexual delas.
Quem não se enquadrasse no seu ideal era condenado à morte.

Catalino e Letícia eram homossexuais e Glayce, apesar da pouca idade, era usuária de drogas. Entre o segundo e o terceiro assassinato, uma adolescente foi escolhida por Dyonathan. Ela foi levada a um local ermo, assim como os outros, e submetida ao cruel interrogatório. Mas, ao fim do “ritual”, foi considerada pura e liberada com vida.
Já os condenados eram esfaqueados e estrangulados. Depois, eram deixados na posição de cruz para que assim fossem purificados de seus pecados.
Por ser adolescente, Dyonathan foi enviado para uma Unidade Educacional de Internação (UNEI), mas, em 2013, enquanto aguardava a decisão se seria solto por já ter completado 21 anos (conforme manda a legislação brasileira), conseguiu fugir. Passou 55 dias na rua e foi capturado no Paraguai. Desde então vive no Instituto Penal de Campo Grande sob força de laudos que afirmam: ele é um perigo para a sociedade e, se for solto, voltará a matar.
Nos últimos 13 anos, Dyonathan, o “Maniaco da Cruz”, foi submetido a diversas avaliações psicológicas. A mais recente é de maio deste ano.
No laudo, o médico-psiquiátrica constatou que ele apresenta “transtorno de personalidade antissocial, com traços de psicopatia, definido por padrão persistente de desconsideração pelas normas e obrigações sociais, com impulsividade, irresponsabilidade, irritabilidade/agressividade, ausência de remorso e comportamento manipulativo”.
Junto com o diagnóstico, a orientação de internação em instituição psiquiátrica e/ou de tratamento psiquiátrico em regime fechado, pelo prazo de dois anos. Por isso, mais uma vez, a Justiça negou o acolhimento de Dyonathan em Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), ou a substituição da internação por tratamento ambulatorial.
Aos 34 anos, Dyonathan é considerado um risco porque acredita que matou por “uma missão maior”, mas não é o único. Ele faz parte de um grupo de 114 presos que estão nos presídios do estado por força de uma medida de segurança; só no Instituto Penal de Campo Grande são 20 internos na mesma situação; entre eles, o segundo personagem desse texto: Luiz Alvez Martins Filho, o Nando.
Nando, o Justiceiro

Era novembro de 2016 quando a história de Luiz Alves Martins Filho, o Nando, começou a ser conhecida por Campo Grande.
As primeiras informações sobre os crimes cometidos por ele chegaram aos jornais no mesmo mês em que a Polícia Civil iniciou escavações em uma área de mata no Jardim Veraneio. A ação era parte das buscas por moradores desaparecidos do bairro Danúbio Azul, vítimas que por muito tempo ficaram esquecidas.
Isso porque todas viviam a vulnerabilidade social do vício ou da pobreza. Eram pessoas, muitas vezes, acusadas de pequenos crimes na região e, por isso, entravam na mira de Nando.
Conforme as investigações, Nando era considerado um “justiceiro” no bairro. Muitas vezes, moradores que eram vítimas de pequenos furtos procuravam o assassino para entregar os autores e, mais tarde, eles se tornavam alvos do assassino.
Foram, ao todo, 17 crimes atribuídos a ele. Duas vítimas nunca foram realmente identificadas, tamanha a vulnerabilidade social em que viviam.
Outras pessoas foram presas junto com Nando. A polícia descobriu que ele não matava sozinho. Dos 15 assassinatos que confessou, todos foram cometidos com ajuda de, pelo menos, duas pessoas. Muitas vezes ele ensina a matar.
A maioria das vítimas foi morta asfixiada – com uma correia de máquina de lavar ou com um mata-leão – e, depois, enterrada de cabeça para baixo em covas estreitas e fundas, porque era mais fácil só empurrar os corpos.
Ao fim das buscas, dez corpos foram encontrados, mas 15 casos atribuídos ao “grupo de extermínio” de Nando. A polícia descobriu ainda que o grupo estava imerso em um esquema de exploração sexual e tráfico de drogas.

Os crimes foram julgados separadamente. Durante todo o processo judicial, a instabilidade de Nando ficou evidente. Nas audiências e julgamentos, ele não respondia sobre os crimes ou sobre as vítimas, mas lamentava a própria história de vida. Contava que, no passado, havia sido preso injustamente e, na cadeia, agredido e violentado a ponto de precisar de sonda para urinar o resto da vida.
Os júris se tornaram “grandes espetáculos de horror”. O serial killer chorava alto, gritava sua inocência, batia nas celas. Berrava, mesmo quando estava em uma sala separada, enquanto testemunhas falavam.

Examinado por médicos psiquiatras, foi diagnosticado com psicopatia grave. O laudo psicológico foi emitido em 2018 e determinou que ele sofria de perturbação mental, que não carregava traumas da infância, não sofria alucinações ou delírios, mas tinha dificuldade em manter o controle, por isso, deveria ser afastado da sociedade.
É por isso que, além dos mais de 175 anos de pena, ele continua no Instituto Penal de Campo Grande, onde, vez ou outra, apresenta episódios de instabilidade. O mais recente foi neste ano, ao saber que a sua história era protagonista do livro “A Jornada dos Esquecidos”, escrito pela delegada de polícia Aline Sinnott Lopes, a responsável por iniciar as investigações dos crimes de Nando.
Conforme documento a que o Primeira Página deve acesso, Nando sofreu surtos psicóticos após tomar conhecimento da publicação da obra literária e precisou de atendimento médico e readequação do tratamento medicamentoso, mas hoje está clinicamente estabilizado.
Assista entrevista com a delegada Aline Sinnott sobre o livro “A Jornada dos Esquecidos”:
Medidas de segurança
Dentro dos presídios de Mato Grosso do Sul, Nando, Maníaco da Cruz e os outros 112 presos com medida de segurança recebem cuidados frequentes para que não se tornem um risco para os próprios internos e agentes penitenciários.
Esse cuidado é feito pela EAP-Desinst (Equipe de Avaliação e Acompanhamento de Medidas Terapêuticas Aplicáveis à Pessoa com Transtorno Mental em Conflito com a Lei) da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul (SES); são eles que realizam as avaliações biopsicossocial e elaboram o Plano Terapêutico Singular, com a medida terapêutica adequada para cada interno.
Segundo a lei, o juiz é o responsável por solicitar a avaliação ou a elaboração do plano terapêutico. Ele pode fazer isso em qualquer fase do processo penal.
Esse Plano Terapêutico Singular é elaborado de forma articulada com as políticas de saúde, assistência social e demais políticas públicas, e é nele que se identifica, ou não, a possibilidade de saída do paciente para tratamento ambulatorial, suporte familiar ou assistencial.
Se não for o caso, os pacientes continuam dentro das unidades prisionais, recebendo atendimento psiquiátrico e psicológico; assim como Nando e o Maníaco da Cruz.
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