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a rota do dinheiro fruto do esquema de corrupção no Judiciário de MS

Em tempos de Pix e cartão de crédito, chama atenção quem anda por aí com dinheiro “vivo” dentro da bolsa. Agora imagina carregar mais de R$ 150 mil?

A história que parece curiosa, na verdade, é bastidor de um esquema de corrupção dentro do Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul. No centro dele, está o desembargador Divoncir Maran, punido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) com aposentadoria compulsória por suspeita de receber propina para soltar o narcotraficante Gerson Palermo em abril de 2020.

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Os detalhes que você vai ler aqui estão no inquérito produzido pela Polícia Federal com base nos arquivos apreendidos na Operação Tiradentes, realizada contra Maran e seus assessores em 2024. Parte da investigação foi revelada em reportagem exibida na edição de domingo (24) do Fantástico, da TV Globo.

Desembargador Divoncir Maran foi punido pelo CNJ com aposentadoria compulsória após conceder prisão domiciliar ao traficante Gerson Palermo, condenado a 126 anos de prisão que fugiu logo após a decisão e segue desaparecido
Desembargador Divoncir Maran foi punido pelo CNJ com aposentadoria compulsória após conceder prisão domiciliar ao traficante Gerson Palermo, condenado a 126 anos de prisão que fugiu logo após a decisão e segue desaparecido

O começo

O começo real do esquema não é datado na operação. No entanto, em outras investigações policiais, o que se diz é que o esquema de corrupção dentro do Judiciário sul-mato-grossense é antigo e de “conhecimento geral”. Talvez por isso, Gerson Palermo recorreu ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS).

Em abril de 2020, o país enfrentava a pandemia de coronavírus, e a ordem era que presos idosos e com comorbidades cumprissem regime domiciliar. Condenado a 126 anos por tráfico de drogas, roubo e sequestro de uma aeronave, Gerson Palermo não se enquadrava nas regras. Mesmo assim, a defesa pediu e, em um plantão de feriado de Tiradentes, o então desembargador Divoncir Maran concedeu o benefício.

Palermo saiu da prisão com tornozeleira eletrônica, mas, em menos de cinco horas, se livrou do monitoramento e fugiu. Até agora ele não foi encontrado.

O “erro” grotesco do desembargador despertou atenção do Brasil.

Divoncir só se tornou alvo de busca e apreensão em 2024. Mas, para a polícia, nem o tempo apagou as provas da possível venda de sentença.

Nos materiais analisados pela Polícia Federal, foi constatado que o desembargador avisou aos assessores sobre o habeas corpus de Palermo duas horas antes de ele realmente chegar à Justiça. O pedido era claro: conceder o benefício.

Os assessores de Divoncir seguiram a ordem e até assinaram o documento por ele. Pronto, em minutos, Palermo estava solto. Sem qualquer tipo de fundamento.

Desembargador Divoncir Schreiner Maran e sua esposa, Viviane Alves Gomes de Paulo
Desembargador Divoncir Schreiner Maran e sua esposa, Viviane Alves Gomes de Paulo (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Para onde foi o dinheiro?

Com o crime comprovado, a maior parte do trabalho da polícia foi descobrir o que era feito do dinheiro recebido pelas sentenças. Qual era o valor? Para onde ele ia?

É nesse ponto que volto à história que começou esse texto. E a personagem aqui é Viviane Alves Gomes de Paulo, esposa de Divoncir.

Segundo a polícia, o desembargador aposentado usava toda a sua estrutura familiar para “lavar” o dinheiro das supostas vendas de sentença. Os filhos eram os responsáveis por receber e diluir o dinheiro. Para não serem descobertos, adquiriam propriedades rurais e, supostamente, produtos agrícolas e gado.

Mas Viviane também era peça fundamental nessa parte do esquema e foi em conversas delas que os investigadores encontraram provas do uso indiscriminado de dinheiro sem nenhuma procedência legal.

Em 2022, dois anos após a prisão de Palermo, Viviane e Divoncir começaram a construção de uma casa de alto padrão – avaliada em mais de R$ 2 milhões, segundo o orçamento enviado pela construtora que realizou o projeto – em um condomínio de luxo em Campo Grande.

O que chamou atenção não foi o valor do imóvel, mas como eram feitos os pagamentos: todos em dinheiro vivo.

Toda a casa seguia o mesmo padrão de luxo. Em agosto de 2022, Viviane fez um orçamento para os móveis planejados; o valor foi de R$ 652 mil. Nas conversas, ela fechou o negócio e pediu para fazer o pagamento em dinheiro, mas em três etapas.

mensagem divoncir 2

O fornecedor aceitou e, em 24 de agosto de 2022, foi até o prédio do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), onde ela trabalhava, receber a “primeira parcela”. A conversa entre os dois revela como tudo ocorreu na “surdina”: ele avisa que chegou e em que carro está, a mulher sai do prédio, vai até o veículo e faz o repasse.

A entrada, segundo os recibos enviados na conversa, foi de R$ 151 mil. No dia seguinte, a mesma “operação” foi realizada. O fornecedor foi até o TRE, esperou no carro e Viviane levou o pagamento. A ação aconteceu três dias seguidos, sempre da mesma maneira.

“É importante mencionar que, salvo melhor juízo, VIVIANE realizou o pagamento de altos valores na casa de 500 mil reais através de dinheiro em espécie. Chama atenção esse fato, haja vista, atualmente, ser incomum o pagamento em dinheiro de valores nesse montante. Ainda, o modo em que foram feitos os pagamentos dentro do veículo demonstra que VIVIANE e DIVONCIR, possivelmente, queriam ocultar do sistema financeiro esses valores, não sendo possível identificar a origem dos recursos. Essa prática é comumente utilizada para valores obtidos através de alguma prática ilícita”.

Mas não foram só os móveis planejados que Viviane pagou no dinheiro. O mesmo se repetiu com a construtora e até com uma empresa de ferragem. Bem, pelo menos, ela tentou.

Nesse último caso, o orçamento do material para a construção da casa foi de pouco mais de R$ 40 mil. Na conversa, o vendedor explicou que o valor podia ser parcelado em seis vezes, mas a mulher pediu um desconto à vista. Ele fez, Viviane fechou o negócio e, antes mesmo de ter a liberação para a obra, insistiu em pagar.

No dia 24 de fevereiro de 2022, um dia depois de receber o orçamento, Viviane perguntou ao vendedor se podia realizar o pagamento naquele dia e ele entregar o material apenas quando a construtora autorizasse o início da obra. O homem explicou que não podia fazer isso.

Viviane: — Entendi bem como é. Não, é porque eu já ia levar aí hoje, hahaha… o dinheiro, entendeu?”

Vendedor: — Não, pode ficar tranquila. No que depender de mim aqui, tá em casa. Agora, me tira uma dúvida, ehh… você ia levar o dinheiro em espécie? É isso?

Viviane: — Sim kkkk.

Vendedor: Kkkkk É doido.

Depois do diálogo, e do espanto com a resposta, o vendedor precisou explicar que a empresa não recebia pagamentos altos em dinheiro.

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Ao longo da investigação, a participação de Viviane no possível esquema de venda de sentenças é reforçada em vários momentos e de diversas maneiras, inclusive enviando ordem para os assessores emitirem decisões, sempre a mando do ‘chefe’, Divoncir. Mas talvez, os detalhes sejam tema de outra Capivara Criminal.

Para a equipe de reportagem do Fantástico, a defesa do casal negou o envolvimento dos dois em “qualquer irregularidade” e afirmou que aguarda o acesso à investigação para se manifestar.

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