O investigador da Polícia Civil aposentado, Ricardo de Souza Pessoa, foi indiciado pelo feminicídio da ex-companheira e empresária Noeli Simsen, morta a tiros no dia 28 de setembro em um dos quartos do hotel que era proprietária e onde morava após o término do casamento, em Cáceres (MT). Nesta quarta-feira (28) completa um mês da morte da vítima.
Conforme o documento obtido pelo Primeira Página o histórico de convivência do casal era marcado, segundo os depoimentos colhidos, por ciúmes excessivos, comportamento possessivo, controle da liberdade da vítima, ameaças de morte e sucessivas tentativas frustradas de encerrar o relacionamento.
O inquérito foi formalmente concluído e encaminhado às autoridades da Justiça para oferecimento de denúncia pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) em 14 de outubro.
A investigação após a prisão de Ricardo, que se apresentou à Delegacia Regional de Cáceres com um revólver e declarou ter efetuado disparos de arma de fogo contra a esposa, concluiu que o crime ocorreu em contexto de violência doméstica e familiar, precedido por reiteradas ameaças, comportamento possessivo e resistência do investigado em aceitar a separação.

Para a Polícia Civil, a morte de Noeli não foi um episódio isolado de violência, mas desfecho de uma relação conjugal marcada por sucessivos relatos de intimidação, ameaças e controle psicológico. A morte da empresária foi descrita pela sequência de acontecimentos no dia 28 de setembro.
08h20
Ricardo de Souza Pessoa faz a primeira ligação para a recepção do Hotel Real, conforme relato testemunhal.
09h10
O investigado volta a ligar para o estabelecimento.
10h17
O aplicativo Life360 registra a localização de Noeli no Hotel Real.
10h20
A chegada da empresária ao estabelecimento foi confirmada em depoimento de uma funcionária.
10h20–13h30
Noeli realiza atividades relacionadas ao hotel e, posteriormente, vai descansar no quarto 19.
13h30–13h40
Ocorrem os disparos que mataram a empresária, e as forças de segurança são acionadas. Os registros apontam horários aproximados diferentes.
13h46
Uma amiga de Noeli recebe um telefonema informando que Ricardo havia efetuado disparos no hotel.
13h50–13h55
Ricardo se apresenta na Delegacia Regional de Cáceres e assume a autoria dos disparos.
Fonte: cronologia descrita pela Polícia Civil de Mato Grosso na investigação do feminicídio.
Vítima havia era agredida, controlada e tentava fugir do ex
Uma das amigas de Noeli contou à polícia que ela era constantemente submetida a fiscalização de sua rotina, sendo obrigada a realizar chamadas de vídeo para demonstrar onde estava e com quem.
A amiga notava marcas como hematomas no corpo de Noeli em diversas ocasiões. Quando era questionada, Noeli dizia que os ferimentos eram causados por quedas ou acidentes domésticos. Em uma oportunidade, Noeli relatou a amiga ter medo de pedir a separação e ser morta.

Segundo a testemunha, por três vezes Noeli saiu de casa tentando encerrar a relação, mas era convencida a voltar pelo ex após ser localizada pelo investigado, que prometia modificar seu comportamento. Conforme a testemunha, as reconciliações também ocorriam sob ameaças aos familiares de Noeli.
O inquérito também menciona uma carta escrita por Noeli e encontrada pela polícia durante as investigações, em que a vítima desejava que Ricardo aceitasse a separação e permitisse que seguisse sua vida.

Vítima compartilhava localização com pessoas de confiança
Dois antes de morrer, em 26 de setembro, Noeli contou a uma amiga que estava voltando para Cáceres após uma viagem para Paris, na França, com intenção de resolver pendências administrativas relacionadas ao Hotel Real, empreendimento vinculado ao casal.
A amiga expressou preocupação com a vida de Noeli, mas ela achava que em razão de ter se passado 4 meses da separação esperava que Ricardo já tivesse aceitado o término.
Mesmo assim, Noeli compartilhava com pessoas de seu círculo de confiança sua localização em tempo real por meio de um aplicativo.
Dia da morte
Funcionários tentaram impedir a entrada de Ricardo no hotel, mas ele estava armado e os ameaçou. Uma testemunha relatou que a execução de Noeli durou cerca de 20 segundos, com base na escuta dos disparos que a atingiram em um dos quartos do hotel.

Ela foi encontrada caída, próxima à cama, apresentando sangramento na região do tórax. Funcionários tentaram ajudá-la enquanto outras pessoas buscaram atendimento de emergência. Apesar das tentativas de socorro, ela faleceu no local.
Ela foi atingida por três tiros. A perícia não identificou sinais típicos de luta corporal ou reação física de defesa por parte da vítima.
Agora o inquérito será analisado pelo MPMT, que deve decidir se apresenta denúncia à Justiça em face de Ricardo de Souza Pessoa.
Violência doméstica: saiba como pedir ajuda em MT
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