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Investigação da PF que prendeu presidente do TCE-MT e apreendeu montes de dinheiro apurou R$ 75,8 milhões em movimentações suspeitas

A Polícia Federal identificou R$ 75,8 milhões em movimentações financeiras suspeitas relacionadas a um suposto esquema de corrupção no Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT). O valor foi rastreado em apenas 294 dias, entre janeiro e outubro de 2025, mas a investigação aponta irregularidades relacionadas a contratos administrativos desde 2024, quando Sérgio Ricardo de Almeida, que foi preso pela Polícia Federal nesta quinta-feira (29), durante a Operação Tomada de Contas, assumiu a presidência do órgão.

Ele e outras cinco pessoas foram alvos de prisão preventiva nesta quinta-feira (29), na Operação Tomada de Contas.

Pilhas de dinheiro em espécie apreendidas pela Polícia Federal durante a Operação Tomada de Conta. – Foto: PF

Conforme decisão do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), a investigação começou após uma denúncia anônima encaminhada ao Ministério Público Federal (MPF). O relato deu origem a uma sindicância instaurada por determinação do STJ, para apurar suspeitas de favorecimento de empresas contratadas pelo tribunal.

A decisão não informa a data exata de abertura da sindicância, mas identifica atos administrativos de 2024 como parte dos fatos investigados.

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Coleções de relógios de luxo apreendidas pela Polícia Federal durante a Operação Tomada de Conta. – Foto: PF

A suspeita inicial era de que Sérgio Ricardo teria utilizado a suspensão de contratos administrativos, sob a justificativa de contenção de despesas, para pressionar fornecedores. Algumas empresas teriam deixado de receber pagamentos, enquanto outras continuaram recebendo recursos públicos e registraram aumento expressivo no faturamento.

Segundo a denúncia, a liberação dos valores estaria condicionada à suposta devolução de parte do dinheiro a pessoas ligadas à presidência do TCE-MT.

STJ autorizou a Polícia Federal a apreender dinheiro acima de R$ 10 mil e analisar câmeras de segurança do TCE-MT
STJ autorizou a Polícia Federal a apreender dinheiro acima de R$ 10 mil e analisar câmeras de segurança do TCE-MT. – Foto: Polícia Federal

Como o suposto esquema funcionava

O primeiro ato administrativo analisado pela PF foi uma portaria publicada em 5 de agosto de 2024, que determinou a suspensão temporária dos contratos do tribunal por 90 dias, incluindo pagamentos a fornecedores. A medida previa exceções para serviços considerados essenciais e contratos liberados pela própria presidência. Em outubro daquele ano, outra portaria prorrogou a suspensão até 31 de dezembro.

A investigação identificou 1.624 pagamentos realizados a 94 empresas em 2024. Desse total, 55 continuaram recebendo recursos antes e depois da suspensão, enquanto 21 deixaram de receber pagamentos após a publicação da medida. Para os investigadores, a diferença de tratamento entre fornecedores reforçou as suspeitas de favorecimento.

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Carros de luxo apreendidos pela Polícia Federal durante a Operação Tomada de Conta. – Foto: PF

Outro ponto considerado relevante foi o crescimento das despesas do tribunal. Segundo a decisão, apesar da justificativa de restrição orçamentária, os pagamentos mensais teriam aumentado R$ 13 milhões, passando de R$ 67 milhões para R$ 80 milhões. O orçamento do TCE-MT também cresceu de R$ 763,8 milhões, em 2023, para R$ 826,4 milhões, em 2025.

A partir da análise de documentos, informações bancárias e imagens de câmeras de segurança, a PF identificou uma segunda frente do suposto esquema: pagamentos extraordinários a conselheiros e servidores por meio de uma estrutura descrita como folha paralela. Os recursos eram transferidos diretamente das contas do tribunal, frequentemente utilizando canais bancários destinados ao pagamento de fornecedores.

Segundo a decisão, foram identificados pagamentos avulsos a 292 pessoas físicas. Os investigadores suspeitam que parte desses recursos tenha sido posteriormente convertida em dinheiro vivo, distribuída entre operadores financeiros e utilizada na formação de patrimônio.

Relógios de alto valor estão entre os objetos apreendidos pela PF na investigação sobre o TCE-MT. (Foto: PF)
Relógios de alto valor estão entre os objetos apreendidos pela PF na investigação sobre o TCE-MT. – Foto: PF

Presidente do TCE-MT teve 150 saques milionários

Sérgio Ricardo é apontado pela Polícia Federal como possível líder da estrutura investigada. Em menos de dez meses, os investigadores identificaram R$ 15,4 milhões em créditos bancários destinados ao presidente do TCE-MT.

No mesmo período, foram registrados 150 saques em dinheiro vivo, totalizando R$ 15,6 milhões. Desse total, 64 retiradas ocorreram diretamente na boca do caixa, movimentando R$ 15,47 milhões. Outras 86 foram realizadas em terminais de autoatendimento.

Os investigadores também identificaram pagamentos milionários a outros integrantes do tribunal. O conselheiro Guilherme Antônio Maluf teria recebido R$ 10,6 milhões; o consultor jurídico-geral Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, R$ 32,3 milhões; e o assistente jurídico Gustavo Fernandes da Silva, R$ 15,9 milhões. Esses valores correspondem a créditos bancários investigados, não necessariamente a saques em espécie.

A chefe de gabinete de Sérgio Ricardo, Roseli Loss, é apontada como responsável por retiradas que somam R$ 3,52 milhões. Segundo a decisão, parte do dinheiro teria sido entregue a Adriangelo Barros Antunes, ex-cunhado do presidente. Imagens bancárias também registraram outros investigados recebendo e transportando grandes quantias em espécie.

Saques diminuíram após diligência da PF

A decisão revela que o comportamento financeiro dos investigados mudou após uma diligência policial realizada em 14 de outubro de 2025. Na ocasião, agentes federais foram identificados pelo sistema de controle de acesso do TCE-MT, e um deles chegou a ser abordado pela segurança do órgão.

Depois desse episódio, os saques de grande porte diminuíram temporariamente. A Polícia Federal identificou acúmulo de dinheiro nas contas, aplicações financeiras e alterações na forma de movimentação dos recursos. As retiradas em espécie voltaram a ocorrer posteriormente, inclusive em maio de 2026.

Para o ministro Og Fernandes, os registros indicam que as práticas investigadas não ficaram restritas a 2025. A decisão aponta indícios de continuidade das movimentações financeiras e dos mecanismos administrativos utilizados para os pagamentos ao longo de 2026.

PF pediu bloqueio de aproximadamente R$ 145 milhões

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Mandado do STJ permite buscas em gabinetes, acesso a registros financeiros e análise de imagens de segurança do TCE-MT. – Foto: Polícia Federal

Embora os R$ 75,8 milhões representem o montante de movimentações suspeitas identificado no período analisado, a Polícia Federal considera que a dimensão financeira do suposto esquema pode ser maior. A investigação também menciona a possibilidade de participação de outras pessoas ainda não totalmente identificadas.

Por isso, a representação policial incluiu medidas de sequestro patrimonial que alcançam aproximadamente R$ 145 milhões. A decisão também cita uma previsão orçamentária de R$ 140,1 milhões para pagamentos de verbas indenizatórias em 2026, utilizada pelos investigadores para sustentar o risco de continuidade das práticas suspeitas.

Esses valores têm naturezas diferentes. Os R$ 75,8 milhões correspondem às movimentações financeiras consideradas suspeitas; os R$ 145 milhões se referem às medidas patrimoniais solicitadas; e os R$ 140,1 milhões representam uma previsão orçamentária. Nenhum desses montantes deve ser apresentado como valor integral de desvio já comprovado.

Operação resultou em seis prisões

A Operação Tomada de Contas foi deflagrada nesta quinta-feira (29), com mais de 180 policiais federais mobilizados para cumprir seis mandados de prisão preventiva e 26 de busca e apreensão em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

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PF apontou Sérgio Ricardo no comando de suposto esquema milionário. – Foto: Ângelo Varela/ALMT

O STJ decretou as prisões preventivas de Sérgio Ricardo de Almeida, Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, Gustavo Fernandes da Silva, Felipe José Glinke, Roseli Loss e Adriangelo Barros Antunes. Outros investigados, incluindo o conselheiro Guilherme Maluf, receberam medidas cautelares, como afastamento das funções e proibição de acesso ao tribunal.

A Polícia Federal apura possíveis crimes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e organização criminosa. As investigações continuam para identificar a origem e o destino dos recursos, a eventual participação de fornecedores e a responsabilidade individual dos envolvidos.

A existência das movimentações bancárias não comprova, por si só, a prática dos crimes investigados. Os fatos descritos na decisão são suspeitas e indícios reunidos na fase investigativa, sem condenação definitiva dos envolvidos.

O TCE informou que ainda não irá se manifestar sobre a operação. A reportagem tenta contato com as defesas dos investigados.

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